terça-feira, 11 de maio de 2021

Um pouco do CFA

 "Vontade de não saber perdoar, de não ser compreensivo tolerante — de não me contentar com o pouco — amor malfeito, depressa, fazer a barba e partir”. 

(Caio Fernando Abreu, carta a Vera Antoun)

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Recusa


       Eu queria dizer sim, mas nada saiu da minha boca, além de um curto gemido. Quis dizer que, apesar de tudo, ainda existia muito de você aqui dentro. Mas agora era diferente - parecia que as traças haviam tomado conta do lugarzinho onde o amor é guardado, aqui dentro do peito, e estavam corroendo aquele sentimento, que já não andava bem. Machucado pela falta, ferido pelo orgulho e torturado pelo ciúme, aquele amor implorava por sua morte como um condenado infeliz. Pobre coração. Condenado a amar alguém que não sabe definir prioridades ou fazer escolhas. Alguém que não entende que, quando o amor é encontrado, se faz necessário cultivá-lo, para que outros sentimentos não sobressaiam e o destruam. O ressentimanto, o ciúme e a desconfiança são os piores carrascos, capazes de destruir até o mais lindo dos sentimentos.
      Dizem que o amor verdadeiro não acaba, mas quem é capaz de resistir a tantos golpes? Quem resiste ao ter seu coração machucado repetidas vezes, sem poder fazer nada a não ser chorar baixinho, a noite inteira, sobre o travesseiro? Qual a verdadeira lógica de amar? Será que é permitir que o outro faça conosco o que bem entender, por julgar que estaremos sempre ao seu alcance? Talvez esse seja o erro dos amantes nos dias de hoje… Porque o amor, por mais belo que seja, também sangra, também machuca e nos faz sentir dores em lugares que nem sabíamos que existiam. O amor é capaz de causar feridas profundas, principalmente quando é sincero e forte demais; feridas difíceis de serem curadas…Todos nós queremos ser felizes. Será que não estaríamos nem tentando?

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Ao Zé da Tati






Querido Zé,



   Perdoa o caos que eu me tornei, Zé. Perdoa você também, Tati, por te roubar o Zé por uns minutos, mas ele te entende tão bem e sei que ele vai me entender também. Entender o vazio enorme que existe aqui dentro, tão profundo, tão escuro. 

   Parece que nada consegue me preencher. Tô achando que me tornei um buraco profundo demais pra ser preenchida por essas pessoas acostumadas com superficialidades. Nada é grande o bastante. É preciso alguém chegar lá no fundo, explorar. Mas não há ninguém, Zé. Nenhum ser. Nenhuma alma disposta a desvendar a menina ferida que cavou um buraco fundo demais e passou a viver ali, negando sua existência. Às vezes demorei a escutar sua respiração, cheguei a pensar que já era, Zé. Só que dia desses acho que a ouvi resmungar alguma coisa. É incrível. Parece que essa menina é imortal. Eu juro, Zé, juro que dia desses escutei as batidas do coração dela. Pensei que tivesse matado a menina, nem acreditei quando percebi que ela ainda vivia ali, dentro daquele buraco escuro e tão sem vida. Quando olhei de novo, o poço nem me pareceu tão fundo assim. E eu pude enxergar ela sentada lá, quietinha, segurando as pernas contra o peito como uma criança assustada. Não é incrível, Zé? Ela tava lá, eu vi. Eu sei que você acredita em mim. Você gostava tanto daquela menina.

   Sabe Zé, me doeu tanto vê-la ia embora assim, mas ninguém mais poderia machucar ela, não é legal? Aquela menina era a minha vergonha, minha parte frágil que só me fazia sofrer. Pelo menos era o que eu pensava. Eu juro que gostava um pouco dela, mas que gostar é esse que não suporta outra pessoa vivendo dentro de si? A carga da menina era pesada demais pra minha coluna sempre doente. Quando eu senti falta dela, entendi que ela era o melhor que havia em mim. E agora, como eu faço pra salvar ela, Zé? Me diz!

   Eu, às vezes, sinto falta dela. Hoje eu descobri que ela ainda está ali, encolhidinha, no fundo de dentro de mim. Estranho né, Zé? Hoje eu quero salvar a menina. 
     
   E agora, Zé? Eu sei que você escuta a Tati, só você é capaz de me entender também.

Ajuda, Zé.

Não deixa ela morrer. 
Não deixa. 
Não.

Deixa.

                                                                                              Indira Nóbrega, ao Zé da Tati Bernardi <3

    

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Saudade

 


  Eu chorei durante várias noites seguidas, esperando o telefone tocar, batidas à porta, esperando você voltar. Mas agora eu sei. Eu sei que você não veio e não vem. Decidiu me esquecer, me tirar da sua vida. Seu coração magoado não me permite explicações, apenas meras lembranças do que poderia ter sido bom.
     Que a bebida me tire todas as lembranças suas nessa noite tão fria, porque quando eu chegar em casa e deitar na cama não quero sentir o outro lado vazio, ainda com o seu cheiro. Não quero lembrar que você foi embora, que eu matei nossa convivência. Quero chegar em casa, deitar e dormir, sem sonhar com você. Porque noite passada eu sonhei e acordei chorando. Porque noite passada eu te liguei, mas não falei do vazio que a tua ausência deixou no meu peito. Eu não disse que ainda te amo.

Porque até uma ligação sua, bêbado, na madrugada, seria melhor do que esse vazio.


Indira Nóbrega

sexta-feira, 14 de junho de 2013

R-O-M-A



Talvez o problema seja o seguinte:
 Eu, nessa história de fingir não ter coração, acabei ficando sem um.


Indira Nóbrega

domingo, 2 de junho de 2013

Se não fosse amor seria loucura



Eu te peço pra ir embora, porque ter você não é mais como ter você. Desejar tuas mãos em minha pele agora passou a ter um gosto diferente. Teu cheiro aguça e provoca meus sentidos, me arrepia a pele e me faz, por impulso, gritar um ''te odeio''. Mas esse quase-amor disfarçado de ódio dura apenas um segundo. Jogo o travesseiro contra o teu peito e grito o quanto você é desprezível, o quanto você é idiota, o quanto te odeio. Teu sorriso de desdém sabe que tudo aquilo é mágoa, que eu só queria você por um pouco mais de tempo. E eu faço cara de má e te peço pra fechar a porta quando passar. Porque não estar nem aí pra você é mais fácil do que todo o meu amor. Mas não vai não, fica um pouco mais. Prometo esconder todo o amor, jogar ele fora, dar ao primeiro que passar pela frente, socar até ele encolher, só pra você não se assustar com o tamanho. Mas não vai não. Fica um pouco mais.

Indira Nóbrega


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Eterno enquanto dure





Eles seguem se completando assim, do jeito deles. Ele deita ao lado dela, faz um carinho, enquanto ela fecha os olhos e não diz nada. Não há nada a ser dito, nada a ser feito, a não ser permanecer ali, calados, olhando um para o outro e sorrindo de vez em quando. Tão cumplices, tão amigos, tão perfeitos que se encaixam completamente em todos os aspectos. Feridos, talvez. Ela, que sempre foi tão frágil, segura a dor dele nas costas e faz de conta que a dela nunca existiu. Quando está com ele, parece realmente que seu coração nunca foi quebrado, nunca amou, nunca se entregou. Sabem para onde vão, quem são, conhecem cada centímetro do outro, cada detalhe. São iguais. Se abraçam e se encaixam, se beijam e parece que não há nada igual, não há beijo melhor. Passam horas e horas apenas abraçados, enquanto o mundo cai ao redor. Tudo implica, tudo confunde, nada faz sentido, mas permanecem ali, firmes e fortes, esperando pelo momento em que tudo aquilo deixará de fazer sentido e, finalmente, eles se deixarão. Sabem que não é pra sempre, mas, enquanto estiverem juntos, sentirão a eternidade que faz um precisar tanto do outro.




segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Desejo proibido



A lembrança de dois corpos, duas vidas completamente diferentes que se enlaçam entre fios de pensamento e desejo, armadilha e sedução, mentiras e cumplicidade. Com o gosto do beijo ainda na boca, o cheiro ainda invadindo suas narinas e a lembrança do toque ainda nas suas mãos, ela levanta, acende um cigarro e reflete sobre todos os momentos que passaram juntos e o medo acaba por atormentá-la. O pensamento não ajuda. O coração mostra-se presente, oferecendo carinho, abraço e colo. A vontade de estar junto cresce, levando quem um dia pensou em se afastar a complicar ainda mais a situação daqueles dois. Eles se desejam. Sentem carinho, sentem falta um do outro, mas negam o tempo todo.

 Seria possível, um dia, deixar de desejá-lo?

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Rotina da saudade










Penso em você ao acordar. Simples. É só abrir o olho e pronto, lá vem a lembrança do teu rosto e dos teus lábios, me dando um beijo de bom dia. Abro um sorriso. Se alguém estivesse ao meu lado, nunca entenderia porque essa rotina me acompanha todos os dias. Ou não o agradasse. Loucura, talvez paixão. Mas, como não tenho ninguém, me sinto confortável nessa situação. Ninguém acorda ao meu lado, ninguém escuta quando digo 'Bom dia, amor' todas as manhãs para um rosto presente apenas em minha mente, esperando que você ouça, a tantos quilômetros de distância. E que sinta o meu beijo. E o meu amor. E que saiba que existe alguém, em algum cantinho do mundo, que realmente se importa se você está bem ou se está precisando de algo. Alguém que sente falta da sua presença todos os minutos. Porque a vida é sem brilho se não estou com você, amor, fica difícil demais de ser vivida, se você não me ajuda a vivê-la. Os dias passam devagar, mas, ultimamente, esse fato não tem me trazido desconforto algum... Talvez seja pelo fato de eu estar te esquecendo, pouco a pouco. Talvez, por você estar comigo o tempo todo - no pensamento, no coração, na alma. Mas isso eu ainda tenho que descobrir. O que eu sei é que existe uma coisinha que ainda mora no meu peito e me faz não suportar o pensamento de te deixar. Algo dentro de mim ama você com todas as forças e, quando ouso tentar te deixar pra lá, me tortura até vencer minha vontade. Sou eu contra mim mesma, lutando todos os dias. Talvez seja essa parte da sua alma que vive em mim e me acompanha o tempo todo. Talvez, algo maior.


E você me pergunta, todas as noites: 'você não sente nem um pouquinho de saudade de mim?' Eu apenas sorrio e penso: 'Não mais. Agora você está aqui o tempo todo.'"





Indira Nóbrega

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Pequena




- Pequena, eu tenho medo de errar.
Tenho tanto medo de não ser bom o bastante. Às vezes chego a ter dúvidas se mereço mesmo ser feliz. Já fiz tanta coisa nessa vida, menina. Já feri muito, destruí muitos corações. Perdi muitas pessoas legais por não estar preparado pra elas. E agora tenho medo de fazer o mesmo com você, mesmo sem ter intenção. Logo você, que sempre me amou. Você que sempre esteve ao meu lado e me fez sentir único, como ninguém havia conseguido antes. Logo você, que me amou mais do que deveria, talvez até mesmo mais do que eu merecia. Por isso eu falho tanto, pequena. Tento deixar pra lá porque não me sinto pronto pra sustentar tua vida nas minhas costas, teu amor no meu peito, esse amor que é só meu. Só meu. Porque eu sei que o que você sente é amor. Eu queria ser forte também, pequena. Queria ter coragem e força pra fazer tudo ficar certo, mas não sou assim. Sou um homem de ferro com um coração pulsando forte no peito, amor. E por enquanto, ele dói. Cada batida parece que é a última…
Indira Nóbrega