quarta-feira, 20 de maio de 2015

Ao Zé da Tati






Querido Zé,



   Perdoa o caos que eu me tornei, Zé. Perdoa você também, Tati, por te roubar o Zé por uns minutos, mas ele te entende tão bem e sei que ele vai me entender também. Entender o vazio enorme que existe aqui dentro, tão profundo, tão escuro. 

   Parece que nada consegue me preencher. Tô achando que me tornei um buraco profundo demais pra ser preenchida por essas pessoas acostumadas com superficialidades. Nada é grande o bastante. É preciso alguém chegar lá no fundo, explorar. Mas não há ninguém, Zé. Nenhum ser. Nenhuma alma disposta a desvendar a menina ferida que cavou um buraco fundo demais e passou a viver ali, negando sua existência. Às vezes demorei a escutar sua respiração, cheguei a pensar que já era, Zé. Só que dia desses acho que a ouvi resmungar alguma coisa. É incrível. Parece que essa menina é imortal. Eu juro, Zé, juro que dia desses escutei as batidas do coração dela. Pensei que tivesse matado a menina, nem acreditei quando percebi que ela ainda vivia ali, dentro daquele buraco escuro e tão sem vida. Quando olhei de novo, o poço nem me pareceu tão fundo assim. E eu pude enxergar ela sentada lá, quietinha, segurando as pernas contra o peito como uma criança assustada. Não é incrível, Zé? Ela tava lá, eu vi. Eu sei que você acredita em mim. Você gostava tanto daquela menina.

   Sabe Zé, me doeu tanto vê-la ia embora assim, mas ninguém mais poderia machucar ela, não é legal? Aquela menina era a minha vergonha, minha parte frágil que só me fazia sofrer. Pelo menos era o que eu pensava. Eu juro que gostava um pouco dela, mas que gostar é esse que não suporta outra pessoa vivendo dentro de si? A carga da menina era pesada demais pra minha coluna sempre doente. Quando eu senti falta dela, entendi que ela era o melhor que havia em mim. E agora, como eu faço pra salvar ela, Zé? Me diz!

   Eu, às vezes, sinto falta dela. Hoje eu descobri que ela ainda está ali, encolhidinha, no fundo de dentro de mim. Estranho né, Zé? Hoje eu quero salvar a menina. 
     
   E agora, Zé? Eu sei que você escuta a Tati, só você é capaz de me entender também.

Ajuda, Zé.

Não deixa ela morrer. 
Não deixa. 
Não.

Deixa.

                                                                                              Indira Nóbrega, ao Zé da Tati Bernardi <3

    

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